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Família

Guarda compartilhada: o que a lei realmente exige dos pais

Guarda compartilhada não é dividir a semana ao meio. É dividir a responsabilidade, e a diferença entre as duas coisas resolve boa parte dos conflitos.

6 min de leitura Villanova & Scopel

Boa parte dos conflitos sobre guarda começa por um mal-entendido de vocabulário: a crença de que guarda compartilhada significa dividir a semana ao meio. Não significa, e desfazer essa confusão resolve mais discussão do que qualquer decisão judicial.

Guarda é responsabilidade, não calendário

O Código Civil define guarda compartilhada como a responsabilização conjunta e o exercício de direitos e deveres por ambos os pais em relação aos filhos (art. 1.583, § 1º).

Ou seja: guarda trata de quem decide. Escola, tratamento médico, viagem internacional, religião, atividades: nada disso é decidido unilateralmente por um dos pais. As duas assinaturas importam, os dois têm acesso a boletim e prontuário, os dois respondem.

O tempo que a criança passa com cada um é assunto separado, chamado de convivência. A lei diz que ele deve ser dividido de forma equilibrada (art. 1.583, § 2º): equilibrada, não idêntica. Equilíbrio se mede pela rotina real da criança, pela distância entre as casas, pela idade e pelos horários de trabalho dos pais.

Compartilhada é a regra, mesmo sem acordo

Desde a Lei nº 13.058/2014, a guarda compartilhada é aplicada sempre que ambos os pais estiverem aptos a exercer o poder familiar, ainda que não haja acordo entre eles (art. 1.584, § 2º).

Isso surpreende muita gente, e é intencional. O legislador partiu da premissa de que a criança tem direito à convivência com os dois, e que a briga entre adultos não deve, por si só, afastar um deles das decisões da vida do filho.

As exceções são estreitas: quando um dos pais declara ao juiz que não deseja a guarda, ou quando um deles não está apto ao exercício do poder familiar: situações de risco, violência ou ausência efetiva.

Onde a criança mora

Na guarda compartilhada define-se a residência de referência: a base da criança, a que serve para matrícula escolar, endereço e rotina. Ter residência de referência com a mãe ou com o pai não reduz a guarda do outro, nem transforma a guarda em unilateral. É uma questão de logística, não de hierarquia.

O plano de convivência

É o documento que evita a maior parte dos conflitos, e o que mais se negligencia. Um plano bem-feito responde, por escrito:

  • dias da semana e fins de semana com cada um, e o horário exato de troca;
  • quem busca e quem leva, e o que acontece se houver atraso;
  • divisão das férias escolares de julho, de dezembro e dos recessos;
  • feriados prolongados, Natal, Ano-Novo, Dia das Mães e Dia dos Pais;
  • aniversário da criança e aniversário de cada um dos pais;
  • regras para viagens, inclusive autorização internacional;
  • como e em que horários se dá o contato por telefone ou vídeo;
  • o canal de comunicação entre os pais e o prazo para responder decisões urgentes.

Parece excessivo. Não é. Cada item dessa lista já foi motivo de processo.

Alimentos continuam existindo

Outro mal-entendido comum: guarda compartilhada não elimina a pensão alimentícia. A obrigação de sustento é de ambos, na proporção dos recursos de cada um. Se um dos pais tem renda significativamente maior, ou se a criança passa mais tempo em uma das casas, o ajuste em dinheiro continua sendo devido.

Guarda alternada não é a mesma coisa

Guarda alternada, em que a criança vive períodos inteiros e alternados em cada casa, como se tivesse duas rotinas, não se confunde com guarda compartilhada e é vista com reserva pela doutrina e pela jurisprudência, especialmente para crianças pequenas, pela instabilidade que costuma provocar.

Quando a compartilhada não se sustenta

Há situações em que ela é afastada: violência doméstica, alienação parental grave, dependência química não tratada, ausência prolongada e voluntária de um dos pais. Nesses casos, define-se guarda unilateral, preservando-se, quando possível e seguro, o direito de visitas.

O critério que orienta tudo

Todas essas regras se subordinam a um único princípio: o melhor interesse da criança e do adolescente. Não é o interesse do pai, nem o da mãe, nem o senso de justiça entre adultos. É o que preserva a rotina, a segurança emocional e o vínculo da criança com os dois lados da família.

Quando os pais conseguem organizar isso por acordo, o resultado é quase sempre melhor (mais rápido, mais barato e, sobretudo, mais durável) do que qualquer solução imposta.


Texto informativo e geral. A definição da guarda e do plano de convivência depende das circunstâncias concretas de cada família e do melhor interesse da criança envolvida.

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Retrato de Renato Villanova Retrato de Carolina Scopel

Villanova & Scopel Advogados

Conteúdo produzido pela equipe do escritório. Tem caráter informativo e não substitui a orientação jurídica sobre um caso concreto.

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